Economia

Abraget Rebate Setor de Baterias e Defende que Leilão Deveria Ser de Serviços Ancilares: O Que Está em Jogo no Mercado de Energia Brasileiro

A Associação Brasileira dos Geradores Termelétricos (Abraget) critica a inclusão de baterias no leilão de reserva de capacidade e defende que a disputa deveria ser por serviços ancilares. Entenda o embate que pode redefinir o futuro do armazenamento de energia no Brasil.

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Imagem: Abraget Rebate Setor de Baterias e Defende que Leilão Deveria Ser de Serviços Ancilares: O Que Está em Jogo no Mercado de Energia Brasileiro

O debate sobre o futuro do armazenamento de energia no Brasil ganhou um novo capítulo com o posicionamento firme da Associação Brasileira dos Geradores Termelétricos (Abraget). Em comunicado recente, a entidade rebateu o setor de baterias e defendeu que o leilão de reserva de capacidade previsto pelo Ministério de Minas e Energia (MME) deveria, na verdade, ser direcionado para serviços ancilares, e não para capacidade instalada.

A posição da Abraget reacende uma discussão estratégica que vai muito além de uma simples disputa entre tecnologias. O que está em jogo é a forma como o Brasil vai garantir a confiabilidade e a segurança eletromagnética do seu sistema elétrico nos próximos anos, em um cenário de crescente participação de fontes renováveis intermitentes.

O Ponto Central da Crítica: Baterias Não Geram Energia

O argumento principal da Abraget é direto e técnico: baterias não geram energia e, portanto, não oferecem confiabilidade energética ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Na visão da associação, o custo das baterias seria o próprio custo da energia armazenada, o que muda completamente a equação econômica quando comparado a outras fontes de geração.

A entidade também ressaltou a inadequação de comparação de custos entre equipamentos fundamentalmente diferentes. Segundo a Abraget, comparar baterias com geradores térmicos é como comparar elementos com funções distintas dentro do sistema elétrico. Enquanto as térmicas garantem geração firme e despachável, as baterias funcionam como equipamentos de armazenamento temporário.

"Baterias não são geradores. O papel das baterias como complementar para o sistema é legítimo, mas equipará-las a fontes de geração firme distorce a lógica de planejamento energético e pode comprometer a segurança do suprimento."

Leilão de Capacidade vs. Leilão de Serviços Ancilares

A distinção entre esses dois tipos de leilão é fundamental para entender o embate. O leilão de reserva de capacidade, proposto pelo MME, visa contratar usinas que possam ser acionadas em momentos de pico de demanda ou de baixa geração renovável. Já os serviços ancilares são funções de suporte ao sistema elétrico, como regulação de frequência, controle de tensão e resposta rápida a variações de carga.

A Abraget defende que, se o objetivo é contratar baterias, o mecanismo correto seria um leilão específico de serviços ancilares, onde esses equipamentos poderiam competir de forma adequada e transparente. Misturar baterias em um leilão de capacidade, na visão da associação, cria uma distorção competitiva que prejudica a comparação justa entre tecnologias.

Os principais pontos levantados pela Abraget incluem:

  • Baterias como complementares: Devem ser utilizadas de forma adequada e complementar, atuando como serviços ancilares
  • Segurança eletromagnética: O sistema precisa de fontes que garantam a segurança e a estabilidade da rede, com a segurança eletromagnética do SIN sendo prioridade
  • Comparação inadequada: Equiparar custos de baterias com geradores térmicos ignora diferenças fundamentais de função e confiabilidade
  • Papel das hidrelétricas: A Abraget também ressaltou o papel das usinas hidrelétricas reversíveis como solução de armazenamento mais robusta e de longo prazo

O Contexto: Transição Energética e Fontes Intermitentes

O Brasil vive um momento de expansão acelerada de fontes renováveis intermitentes, especialmente eólica e solar. Essa expansão é positiva do ponto de vista ambiental, mas traz desafios técnicos significativos para a operação do sistema elétrico.

Quando o vento para ou o sol se põe, a geração dessas fontes cai drasticamente. É nesse momento que o sistema precisa de fontes despacháveis — usinas que podem ser ligadas rapidamente para suprir a demanda. Historicamente, esse papel foi desempenhado pelas hidrelétricas e, em momentos de maior estresse, pelas térmicas.

A entrada das baterias nessa equação adiciona uma nova variável. Defensores argumentam que o armazenamento em baterias pode substituir parte da geração térmica, reduzindo emissões e custos. Críticos, como a Abraget, alertam que a capacidade limitada de armazenamento e a dependência de recarga tornam as baterias inadequadas como substituto direto de geração firme.

Hidrelétricas Reversíveis: A Alternativa Defendida pela Abraget

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Além de criticar a inclusão de baterias no leilão de capacidade, a Abraget destacou as usinas hidrelétricas reversíveis como uma alternativa mais robusta para armazenamento de energia em larga escala. Essas usinas funcionam bombeando água para um reservatório elevado nos momentos de baixa demanda e liberando essa água para gerar energia nos momentos de pico.

As vantagens das hidrelétricas reversíveis incluem:

  • Capacidade de armazenamento muito superior às baterias de lítio
  • Vida útil de décadas, contra 10-15 anos das baterias
  • Custo por MWh armazenado significativamente menor em projetos de grande escala
  • Inércia rotacional, que contribui para a estabilidade do sistema elétrico
  • Menor impacto ambiental no ciclo de vida completo, sem necessidade de mineração de lítio

A associação também classificou as soluções de armazenamento por baterias como de "meia-entrada", sugerindo que o setor busca benefícios regulatórios sem oferecer a mesma contrapartida em termos de confiabilidade e segurança sistêmica.

O Que Dizem os Defensores das Baterias

Do outro lado do debate, o setor de baterias argumenta que a tecnologia evoluiu significativamente nos últimos anos, com redução de custos e aumento de capacidade. Sistemas de armazenamento em baterias de grande escala (BESS) já são realidade em diversos países e desempenham papel importante na estabilização de redes elétricas com alta penetração de renováveis.

Os defensores também apontam que:

  • O tempo de resposta das baterias é muito superior ao de qualquer fonte térmica, podendo reagir em milissegundos
  • Os custos de baterias de lítio caíram mais de 90% na última década
  • A modularidade permite instalação rápida e próxima aos centros de consumo
  • A combinação solar + bateria já é competitiva em diversos mercados globais

O embate, portanto, não é apenas técnico. É também regulatório e econômico, envolvendo bilhões de reais em investimentos e a definição de qual modelo o Brasil adotará para garantir segurança energética nas próximas décadas.

Impacto no Planejamento Energético Nacional

A decisão sobre como estruturar os leilões de capacidade e serviços ancilares terá impacto direto no planejamento energético do Brasil pelos próximos 10 a 20 anos. Se as baterias forem incluídas nos leilões de capacidade, isso pode acelerar a transição para um modelo mais descentralizado e baseado em armazenamento distribuído.

Por outro lado, se a posição da Abraget prevalecer e os leilões forem segmentados — capacidade para geração firme e serviços ancilares para armazenamento —, o modelo brasileiro manteria uma separação clara entre funções, o que, segundo a associação, garantiria maior transparência e eficiência na alocação de recursos.

O Ministério de Minas e Energia ainda não definiu o formato final do leilão, mas a pressão de ambos os lados é intensa. A decisão final precisará equilibrar:

  • Segurança do suprimento: Garantir que o sistema tenha capacidade suficiente para atender a demanda em qualquer cenário
  • Competitividade de custos: Contratar a solução mais econômica para o consumidor
  • Transição energética: Avançar na descarbonização sem comprometer a confiabilidade
  • Inovação tecnológica: Permitir que novas tecnologias participem do mercado de forma justa

O Papel dos Serviços Ancilares no Sistema Elétrico Moderno

Os serviços ancilares são frequentemente subestimados no debate público sobre energia, mas são absolutamente essenciais para o funcionamento do sistema elétrico. Eles incluem funções como:

  • Regulação de frequência: Manter a frequência da rede em 60 Hz, essencial para o funcionamento de todos os equipamentos elétricos
  • Controle de tensão: Garantir que a tensão na rede esteja dentro dos limites adequados
  • Reserva girante: Capacidade de geração pronta para ser acionada em segundos
  • Black start: Capacidade de religar o sistema após um apagão total
  • Resposta rápida de frequência: Reação imediata a variações bruscas de carga ou geração

É nesse campo que as baterias têm vantagem técnica indiscutível. Sua capacidade de resposta em milissegundos as torna ideais para regulação de frequência e resposta rápida. A Abraget reconhece esse papel, mas insiste que ele deve ser contratado por meio de mecanismos específicos, não misturado com leilões de capacidade de geração.

Perspectivas para o Mercado de Energia Brasileiro

O debate entre Abraget e o setor de baterias reflete uma tensão global que está presente em praticamente todos os mercados de energia em transição. Países como Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Alemanha já enfrentaram discussões semelhantes e adotaram soluções variadas.

No Brasil, a complexidade é amplificada pela matriz hidrelétrica dominante, que já oferece flexibilidade significativa, mas que enfrenta desafios crescentes com mudanças climáticas e variabilidade hidrológica. A complementaridade entre hidrelétricas, térmicas, renováveis e armazenamento será a chave para um sistema robusto e sustentável.

O que parece claro é que não existe solução única. O futuro do sistema elétrico brasileiro dependerá de um mix inteligente de tecnologias, cada uma desempenhando o papel para o qual é mais adequada. O desafio regulatório é criar mecanismos que incentivem essa complementaridade sem distorcer a competição ou comprometer a segurança do suprimento.

Conclusão: Um Debate que Define o Futuro Energético do País

A posição da Abraget, ao rebater o setor de baterias e defender leilões específicos de serviços ancilares, levanta questões fundamentais sobre como o Brasil vai estruturar seu mercado de energia nos próximos anos. Não se trata de ser contra ou a favor de baterias, mas de definir o papel correto de cada tecnologia dentro do sistema.

O consumidor brasileiro, que já paga uma das tarifas de energia mais altas do mundo, precisa que essa decisão seja tomada com base em critérios técnicos e econômicos sólidos, não em pressões setoriais ou modismos tecnológicos. A segurança do suprimento, a modicidade tarifária e a sustentabilidade ambiental devem ser os pilares de qualquer decisão regulatória nesse campo.

O debate está aberto e as próximas decisões do MME serão determinantes. O que não pode acontecer é que a pressa em adotar novas tecnologias comprometa a confiabilidade de um sistema elétrico que atende mais de 200 milhões de brasileiros. A transição energética é necessária e urgente, mas precisa ser feita com responsabilidade, transparência e visão de longo prazo.

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