Tecnologia

Brasil assume 3º lugar no ranking de adoção de IA na América Latina: como empresas brasileiras estão usando inteligência artificial para crescer

Pesquisa inédita mostra que 68% das grandes empresas brasileiras já implementaram alguma solução de IA. Setores de agronegócio, saúde e manufatura lideram a transformação.

10:006 min de leitura
Imagem: Brasil assume 3º lugar no ranking de adoção de IA na América Latina: como empresas brasileiras estão usando inteligência artificial para crescer

O Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor de tecnologia para se tornar um produtor ativo de soluções de inteligência artificial. Uma pesquisa inédita realizada pela IDC em parceria com o MIT Technology Review mostra que o país assumiu o 3º lugar no ranking de adoção de IA na América Latina, atrás apenas do México e Chile — e à frente de países como Argentina, Colômbia e Peru.

O dado mais impressionante: 68% das grandes empresas brasileiras (com mais de 500 funcionários) já implementaram pelo menos uma solução de inteligência artificial em operação. Não em teste. Não em piloto. Em produção real, gerando resultado mensurável.

O Mapa da Adoção de IA no Brasil

A pesquisa detalhou quais setores estão na vanguarda da adoção de IA e quais ainda estão em estágio inicial. O resultado desafia o estereótipo de que o Brasil só usa tecnologia para o básico:

  • Agronegócio (74% de adoção): Lidera com folga. Grandes grupos como Amaggi, SLC Agrícola e Terra Santa já usam IA para prever safra, otimizar irrigação, detectar pragas por imagens de drone e analisar composição do solo em tempo real
  • Saúde (69%): Hospitais como Albert Einstein, Sírio-Libanês e HCor implementaram IA para diagnóstico por imagem (raios-X, tomografias, mamografias), triagem automatizada de pacientes em prontos-socorros e gestão inteligente de leitos
  • Manufatura (65%): Empresas como Embraer, Weg e Gerdau usam IA para manutenção preditiva, controle de qualidade por visão computacional e otimização de cadeia de suprimentos
  • Serviços Financeiros (61%): Bancos, seguradoras e fintechs usam IA para análise de crédito, detecção de fraude, atendimento ao cliente e trading algorítmico
  • Varejo (58%): Recomendação de produtos, precificação dinâmica, previsão de demanda e gestão de estoque otimizada por IA

O Agronegócio como Case de IA

Se há um setor que surpreendeu até os otimistas, é o agronegócio brasileiro. O país já é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas a integração de IA está elevando a produtividade a níveis sem precedentes.

O caso Amaggi: O grupo usa um sistema de IA desenvolvido em parceria com a Embrapa que analisa imagens de satélite, dados meteorológicos e informações de sensores no solo para criar um "mapa de produtividade" de cada talhão da fazenda. O resultado: redução de 23% no uso de água para irrigação e aumento de 12% na produtividade da soja.

O caso SLC Agrícola: Implementou um modelo de machine learning que prevê a incidência de pragas 15 dias antes dela acontecer, permitindo aplicação preventiva e redução de 30% no uso de defensivos agrícolas.

O caso Agrosmart: Startup brasileira (adquirida pela Bayer) que usa IA para criar "receituário digital" do solo, indicando exatamente quanto de fertilizante cada metro quadrado precisa. A precisão elimina o desperdício e aumenta a produtividade.

O agronegócio brasileiro tem uma vantagem única: escala. Quando você aplica IA em 100 mil hectares, cada ponto percentual de eficiência se traduz em milhões de reais.

Essa é a explicação de um executivo de agritech ouvido pela reportagem.

A Saúde com IA: Do Laboratório ao Hospital

O setor de saúde brasileiro tem desafios estruturais que a IA não resolve sozinha, mas está conseguindo transformar processos que antes eram gargalos críticos.

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No Hospital Albert Einstein, um sistema de IA analisa tomografias de tórax em busca de nódulos pulmonares. O algoritmo consegue detectar lesões menores que 3 milímetros — algo que passa despercebido até de radiologistas experientes. O tempo de análise caiu de 45 minutos para 8 minutos por exame.

No HCor, um modelo de IA gerencia a alocação de leitos em tempo real, prevendo alta de pacientes com 85% de precisão. Isso reduziu o tempo médio de espera por leito em 40% e melhorou a taxa de ocupação dos hospitais.

Empresas de telemedicina como Conexa Saúde e Dr.Consulta usam IA para triagem inicial de pacientes, direcionando casos urgentes para atendimento imediato e resolvendo consultas simples via chatbot com precisão superior a 90%.

O Brasil Maior IA: O Programa Federal

Reconhecendo o potencial da IA para o desenvolvimento econômico, o governo federal criou em 2025 o programa Brasil Maior IA, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

O programa tem três eixos:

  • Consultoria gratuita para PMEs: Equipes técnicas visitam pequenas e médias empresas, mapeiam oportunidades de uso de IA e ajudam na implementação de soluções iniciais. Em 2026, já atendeu mais de 2.300 empresas
  • Subsídios para implementação: Empresas podem acessar linhas de crédito com juros subsidiados para investir em infraestrutura de IA (computação em nuvem, sensores, coleta de dados)
  • Pesquisa aplicada: Parcerias entre universidades federais e empresas para desenvolver soluções de IA adaptadas às necessidades brasileiras. Destaques para projetos da USP, Unicamp, UFRJ e UFPE

O orçamento do programa para 2026 é de R$ 890 milhões, incluindo recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

Os Desafios que Persistem

Apesar dos números positivos, a pesquisa IDC aponta para desafios significativos que podem limitar a adoção em escala:

1. Falta de Talento

O Brasil forma cerca de 3.500 profissionais por ano em áreas relacionadas a IA (ciência de dados, machine learning, engenharia de IA). A demanda do mercado é estimada em 45.000 posições. O déficit é de mais de 40 mil profissionais — um dos maiores gargalos do ecossistema.

2. Qualidade de Dados

"IA sem dados de qualidade é como carro de Fórmula 1 em estrada de terra", resume um CTO de startup de healthtech. Muitas empresas brasileiras ainda têm dados fragmentados em sistemas diferentes, sem padronização, sem governança e sem qualidade mínima para treinamento de modelos.

3. Custo de Implementação

Para pequenas e médias empresas, o investimento inicial em infraestrutura de IA ainda é proibitivo. Uma implementação modesta — com coleta de dados, treinamento de modelo e integração com sistemas legados — pode custar entre R$ 300 mil e R$ 2 milhões, dependendo da complexidade.

O Futuro da IA no Brasil

As projeções para os próximos anos são ambiciosas, mas factíveis:

  • 2027: 80% das grandes empresas brasileiras devem ter alguma solução de IA em operação
  • 2028: O Brasil pode assumir a 2ª posição no ranking de adoção de IA na América Latina, superando o Chile
  • Investimentos: Projeção de R$ 50 bilhões em IA até 2028, impulsionados por demanda do setor produtivo e políticas públicas
  • Exportação de soluções: Startups brasileiras de IA aplicada a agronegócio já vendem tecnologia para países como Argentina, Paraguai e Colômbia

O Brasil tem uma vantagem comparativa que poucos países têm: diversidade econômica, escala continental e uma matriz produtiva que abrange desde o agronegócio mais tecnológico até a manufatura mais sofisticada. A IA não é apenas uma ferramenta de eficiência — é uma alavanca estratégica para que o Brasil ocupe o lugar que sua escala econômica determina.

Reportagem produzida com base na pesquisa "State of AI in Latin America 2026" (IDC/MIT Technology Review), dados do Brasil Maior IA (MCTI) e entrevistas com executivos do setor. O Negócio Play não mantém relação comercial com as empresas citadas.

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