TecnologiaAtualizado: 8 de maio de 2026

Como Lip-Bu Tan transformou a Intel na nova queridinha dos investidores

Novo CEO da gigante de chips revoluciona estratégia com foco em inteligência artificial, fabricação própria e parcerias asiáticas, fazendo ações da empresa saltarem 85% em 12 meses

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Redação O Negócio Play

8 de maio de 2026
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Intel semicondutores fábrica avançada, Lip-Bu Tan CEO turnaround chips IA e Wall Street — maio 2026
Intel Foundry: a aposta de Lip-Bu Tan para reconstruir a gigante dos chips — 8 de maio de 2026

Quando Lip-Bu Tan assumiu o cargo de CEO da Intel em junho de 2025, a gigante de semicondutores estava em seu momento mais frágil em décadas. Ações despencavam, perdas acumulavam bilhões de dólares trimestrais, a divisão de fabricação estava paralisada e a empresa havia perdido a corrida da IA para a Nvidia. Doze meses depois, a história é radicalmente diferente.

As ações da Intel (INTC) acumulam alta de 85% desde a chegada de Tan, a empresa voltou a reportar lucro líquido positivo e o mercado de capitais a redescobriu como uma das histórias de turnaround mais intrigantes da indústria tecnológica. O que o veterano executivo de semicondutores fez para reverter uma das maiores crises da história da empresa fundada por Robert Noyce e Gordon Moore?

"Lip-Bu Tan não está salvando a Intel do passado. Ele está reconstruindo uma Intel completamente nova para o futuro da computação."

Quem é Lip-Bu Tan

Nascido na Malásia, formado em engenharia pelo MIT e com MBA pela Universidade de São Francisco, Lip-Bu Tan não é um executivo convencional. Antes da Intel, ele presidiu a Cadence Design Systems, empresa de software para design de chips, onde triplicou o valor de mercado em oito anos. Também atuou como venture capitalista no setor de semicondutores por mais de duas décadas, conhecendo profundamente o ecossistema de startups, fornecedores e fabricantes asiáticos.

Essa dupla experiência — como operador de software de chips e como investidor no ecossistema asiático de semicondutores — tornou-se a receita para a transformação da Intel. Tan entende tanto o lado técnico quanto o lado relacional de uma indústria dominada por empresas de Taiwan, Coreia do Sul e China.

Em seu primeiro discurso como CEO, Tan declarou: "A Intel perdeu o foco. Vamos voltar a ser uma empresa de engenharia que faz coisas impossíveis possíveis."

A estratégia de três pilares

A transformação de Tan na Intel se estrutura em três eixos principais:

1. Fabricação: Intel Foundry como negócio independente

O primeiro e mais ousado movimento foi a separação formal da divisão de fabricação (Intel Foundry) como unidade de negócio independente, com P&L próprio. A Intel Foundry agora fabrica chips não apenas para produtos internos da Intel, mas também para clientes externos — concorrentes incluídos.

A estratégia é audaciosa: transformar a Intel de uma empresa que fabricava apenas seus próprios processadores em uma "TSMC americana" — uma foundry de classe mundial sediada nos Estados Unidos. A Intel Foundry já anunciou contratos com a Microsoft (para chips de IA customizados), a Amazon Web Services e a Qualcomm.

O governo dos EUA, através do CHIPS Act, comprometeu US$ 8,5 bilhões em subsídios diretos para expansão das fábricas da Intel em Arizona, Ohio e Oregon, reconhecendo a importância estratégica de ter capacidade avançada de fabricação de semicondutores em território americano.

2. IA: chips que competem com a Nvidia

Tan desistiu de competir com a Nvidia nos GPUs de treinamento de IA — uma batalha que a Intel já havia perdido. Em vez disso, focou em mercados adjacentes onde a Intel tem vantagens naturais:

  • Inferência de IA em servidores: A nova linha Gaudi 3 oferece performance competitiva para inferência (execução de modelos treinados) com custo 40% menor que GPUs Nvidia equivalentes;
  • IA no edge (borda): Processadores Core Ultra com NPUs (Neural Processing Units) integradas para executar IA localmente em laptops e desktops;
  • Chips customizados: Parceria com a Microsoft para desenvolver aceleradores de IA específicos para o ecossistema Copilot.

A estratégia é inteligente: em vez de tentar derrubar a Nvidia do topo, a Intel busca ser a alternativa de custo-benefício nos segmentos onde a Nvidia não domina.

3. Parcerias asiáticas: a abertura que faltava

O terceiro pilar talvez seja o mais inesperado. Tan abriu a Intel para parcerias com empresas asiáticas que antes eram vistas como rivais:

  • TSMC: A Intel passou a ser cliente da TSMC para produção de chips avançados (3nm e 2nm) que suas próprias fábricas ainda não conseguem fabricar;
  • Samsung: Acordo de cross-licenciamento de patentes de memória HBM (High Bandwidth Memory), essencial para chips de IA;
  • Empresas chinesas: Embora limitada por restrições do governo americano, a Intel mantém operações de pacotes de software de IA no mercado chinês.

Essa abertura asiática foi criticada por alguns analistas norte-americanos como "rendição tecnológica". Mas os números defendem Tan: o custo de desenvolver internamente capacidade de 2nm exigiria investimentos de US$ 20 bilhões adicionais e demoraria 4 anos. Ter a TSMC como parceira acelera o time-to-market em pelo menos 24 meses.

Os números do turnaround

A transformação de Tan na Intel já produz resultados mensuráveis:

  • Receita: Q1 2026 reportou US$ 13,2 bilhões, alta de 14% ano a ano — primeiro crescimento em 6 trimestres;
  • Margem bruta: Subiu de 39,8% no Q1 2025 para 46,2% no Q1 2026, reflexo de maior eficiência na fabricação;
  • Lucro líquido: US$ 1,8 bilhão no Q1 2026, após perda de US$ 437 milhões no mesmo período de 2025;
  • Caixa: Reservas líquidas cresceram de US$ 11 bilhões para US$ 18 bilhões, após reestruturação de custos;
  • Ações: INTC subiu de US$ 20 para US$ 37 em 12 meses — valorização de 85%.

A Intel Foundry, em particular, foi a grande surpresa. A divisão fechou US$ 4,2 bilhões em contratos de fabricação para clientes externos nos primeiros 9 meses de operação como unidade independente — superando a meta interna de US$ 3 bilhões para o primeiro ano.

Concorrência com Nvidia e AMD

Apesar do otimismo, a Intel ainda enfrenta desafios monumentais. A Nvidia domina 88% do mercado de GPUs para data centers de IA, com receita trimestral de US$ 39 bilhões — quase três vezes a receita total da Intel. A AMD, por sua vez, cresce 35% ao ano no segmento de CPUs para servidores, ameaçando a hegemonia da Intel no mercado de processadores x86.

Tan reconhece a realidade: "Não vamos ultrapassar a Nvidia em GPUs de treinamento amanhã. Mas podemos ser a escolha mais inteligente em inferência, em edge computing e em fabricação. É sobre escolher as batalhas certas."

A estratégia parece estar funcionando. Grandes hyperscalers — Microsoft, Google, Amazon, Meta — que antes compravam 100% de seus chips de IA da Nvidia, agora estão diversificando 15% a 20% das compras para Intel e AMD, como hedge contra monopólio de preços.

O que os investidores estão enxergando

A valorização de 85% das ações da Intel não é apenas sobre resultados financeiros — é sobre narração (storytelling) estratégico. O mercado adora histórias de turnaround, especialmente quando envolvem uma empresa icônica que parecia perdida.

Analistas do Goldman Sachs e do Morgan Stanley elevaram suas recomendações de "venda" para "compra" nos últimos 6 meses. O consenso de Wall Street projeta que a Intel pode voltar a valer US$ 200 bilhões até 2028 — patamar não alcançado desde 2021.

Mas riscos permanecem:

  • A Intel Foundry ainda não provou que pode fabricar em escala com yields (taxa de chips funcionais) competitivos;
  • As fábricas de processo avançado (2nm e 1,8nm) enfrentam atrasos de 12 a 18 meses em relação à TSMC;
  • Restrições comerciais entre EUA e China podem limitar o acesso da Intel ao maior mercado de semicondutores do mundo;
  • A transição para arquitetura x86 para ARM ameaça o core business de CPUs da Intel.

Implicações para o Brasil

A transformação da Intel tem implicações diretas para o mercado brasileiro. A empresa anunciou em março de 2026 um centro de pesquisa de IA em São Paulo, focado em desenvolvimento de soluções de inferência para o mercado latino-americano. O investimento inicial é de US$ 120 milhões.

Além disso, a Intel Foundry está em negociações preliminares com o governo brasileiro sobre incentivos fiscais para instalação de uma unidade de testes e encapsulamento de chips no país — não uma fábrica completa (que exigiria investimentos de US$ 15+ bilhões), mas uma operação de valor agregado que geraria 800 empregos diretos.

O Brasil é visto pela Intel como mercado prioritário para edge computing: um país continental com infraestrutura de data centers em expansão, onde soluções de IA local (sem dependência de nuvem) têm demanda crescente em setores como agronegócio, mineração e saúde pública.

Análise publicada em 8 de maio de 2026. Dados financeiros baseados em relatório do Q1 2026 da Intel Corp. Projeções de mercado sujeitas a riscos de execução e condições macroeconômicas.
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Equipe editorial do O Negócio Play, com foco em cobertura de mercado de semicondutores, tecnologia corporativa e movimentações de Wall Street que impactam o cenário brasileiro.

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