NegóciosAtualizado: 8 de maio de 2026

Mercado Livre abre mão de rentabilidade para crescer no Brasil

Empresa investe pesado em logística, crédito e marketplace para expandir base de usuários e vendedores no país, apostando em crescimento a longo prazo e na consolidação como superapp latino-americano

Cris Aragoni

Cris Aragoni

Editora-chefe — O Negócio Play

8 de maio de 2026
6 min de leitura
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Mercado Livre centro de distribuição logística e-commerce Brasil — maio 2026
Centro de distribuição do Mercado Livre no Brasil — estratégia de crescimento via logística — 8 de maio de 2026

O Mercado Livre está atravessando em 2026 uma fase que resume bem o dilema das empresas de tecnologia em mercados emergentes: abrir mão de rentabilidade imediata para conquistar escala, usuários e um ecossistema que se autoalimenta. A estratégia, que lembra a Amazon de uma década atrás, transformou a empresa argentina no player mais agressivo — e mais valioso — do comércio eletrônico latino-americano.

A abertura mão de rentabilidade: uma escolha deliberada

Em maio de 2026, a margem EBITDA do Mercado Livre no Brasil caiu para cerca de 6% — menos da metade dos 14% registrados em 2023. Para um mercado de investimentos obcecado por margens, isso poderia soar como alarme. Mas para Marcos Galperin, CEO e fundador, é exatamente o que deveria acontecer.

"Estamos construindo a infraestrutura de comércio e pagamentos da América Latina para as próximas duas décadas. Rentabilidade virá, mas escala é prioridade", declarou Galperin em conferência de resultados do primeiro trimestre de 2026.

A empresa está reinvestindo receita recorde em três frentes principais. A primeira é logística: expansão de centros de distribuição próprios, frota de caminhões, hubs de última milha e tecnologia de automação. A segunda é crédito: o Mercado Crédito, braço de empréstimos da companhia, cresceu 85% em volume no Brasil entre 2024 e 2026. A terceira é tecnologia: algoritmos de recomendação, combate a fraudes e melhoria da experiência do usuário.

O resultado é um ecossistema em que cada investimento em uma área fortalece as outras. Melhor logística atrai mais compradores. Mais compradores atraem mais vendedores. Mais vendedores geram mais transações para o Mercado Pago. Mais transações geram dados para crédito. Mais crédito permite vendedores comprarem mais estoque. O ciclo se retroalimenta.

De marketplace a superapp: a ambição do Mercado Livre

O modelo de negócio do Mercado Livre em 2026 vai muito além de conectar vendedores e compradores. A empresa está se transformando em um superapp — conceito que define aplicativos que oferecem múltiplos serviços em uma única plataforma.

No app do Mercado Livre, um usuário brasileiro pode: comprar um celular, pagar a conta de luz via Mercado Pago, investir em CDB pelo Mercado Fondos, pedir um empréstimo pelo Mercado Crédito, contratar um seguro, vender produtos usados e acompanhar entregas em tempo real. Nenhum outro player na América Latina oferece essa amplitude de serviços integrados.

Essa estratégia de superapp não é nova. WeChat (China), Grab (Sudeste Asiático) e Gojek (Indonésia) já provaram que a combinação de comércio, pagamentos, crédito e serviços cria engajamento e retenção impossíveis de replicar com modelos fragmentados. O Mercado Livre está trazendo esse conceito para a América Latina — adaptado às características de mercados emergentes.

A aposta está funcionando. Em 2026, o tempo médio de uso do app do Mercado Livre no Brasil chegou a 42 minutos por usuário ativo mensal — superando Instagram (38 minutos) e se aproximando de TikTok (48 minutos). Mais tempo no app significa mais transações, mais dados e mais oportunidades de monetização.

Investimento em logística: a guerra da última milha

A transformação logística do Mercado Livre é talvez o investimento mais visível — e mais caro. Em três anos, a empresa multiplicou por mais de dois sua capacidade de armazenamento no Brasil.

Em 2023, o Mercado Livre operava 8 centros de distribuição no Brasil. Em 2026, são 18 centros — incluindo o megahub de Guarulhos (SP), com 150 mil metros quadrados, o maior centro de fulfillment da América Latina. A frota própria de caminhões cobre rotas em 12 estados brasileiros, reduzindo dependência de transportadoras terceirizadas.

O investimento em tecnologia de automação também é agressivo. Os centros de Guarulhos e Cajamar (SP) operam com robôs autônomos de picking, que selecionam produtos de prateleiras e os levam para estações de empacotamento. A empresa afirma que a automação reduziu em 30% o custo de processamento de pedidos e aumentou em 40% a capacidade de throughput.

O impacto para o consumidor é mensurável. Em 2023, apenas 22% dos produtos vendidos no Brasil eram entregues em até 48 horas. Em 2026, esse número saltou para 65%. Para produtos vendidos pelo Mercado Livre diretamente (oficial stores), o índice chega a 82%.

Mas essa guerra logística tem um custo. O investimento em infraestrutura de entrega consumiu US$ 2,8 bilhões apenas no Brasil entre 2024 e 2026. O retorno desses investimentos é projetado para começar a aparecer apenas a partir de 2028.

Mercado Pago: a fintech que financia o ecossistema

Se a logística é a espinha dorsal física do Mercado Livre, o Mercado Pago é o sistema circulatório financeiro. Lançado em 2003 como solução de pagamentos para o marketplace, evoluiu para uma das fintechs mais relevantes da América Latina.

Em 2026, o Mercado Pago processou R$ 320 bilhões em transações no Brasil. A base de usuários ativos chegou a 25 milhões — o equivalente a 12% da população adulta brasileira. O serviço oferece carteira digital, QR Code para pagamentos em lojas físicas, transferências, investimentos em renda fixa e empréstimos.

O Mercado Crédito, braço de empréstimos, é particularmente estratégico. Em 2026, o volume de crédito concedido a vendedores do marketplace cresceu 85%. Para a empresa, isso tem duas vantagens: gera receita de juros (taxas médias de 3,5% ao mês) e aumenta o volume de vendas no marketplace — vendedores com acesso a crédito compram mais estoque e vendem mais.

A expansão do Mercado Pago também enfrenta desafios. A concorrência com o Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, é intensa. O Pix é gratuito para pessoas físicas e tem adoção quase universal no Brasil. O Mercado Pago se diferencia oferecendo recursos adicionais — como parcelamento, cashback, investimentos integrados e empréstimos — que o Pix puro não oferece.

O cenário competitivo: Amazon, Shopee e AliExpress à espreita

A estratégia de investimento agressivo do Mercado Livre é também uma resposta à competição cada vez mais acirrada. O e-commerce brasileiro em 2026 não é mais um monopólio.

A Amazon Brasil cresceu 45% em 2025, impulsionada pelo programa Prime (que oferece frete grátis e streaming de vídeo) e pela expansão de categorias. A Amazon ainda é menor que o Mercado Livre em volume, mas tem vantagem em eletrônicos de alta tecnologia e produtos importados.

A Shopee, plataforma do grupo Sea (Singapura), domina o segmento de itens de baixo valor — eletrônicos baratos, acessórios, produtos de beleza e itens de casa. A estratégia de frete grátis com valor mínimo de compra extremamente baixo atrai um público jovem e de menor poder aquisitivo. Em 2026, a Shopee lançou live commerce no Brasil — transmissões ao vivo com vendedores apresentando produtos e ofertas em tempo real.

O AliExpress, do grupo Alibaba, foi fortalecido pela regulamentação de remessas conforme, que permite importações de até US$ 50 com isenção de impostos federais. O resultado é que eletrônicos, acessórios e itens de casa chegam ao consumidor brasileiro com preços 30% a 60% menores que os praticados no varejo nacional.

A Magalu (Magazine Luiza), varejista tradicional que migrou para marketplace, mantém força em eletrodomésticos, móveis e itens de maior ticket. E a Shein, embora focada apenas em moda, continua a dominar o segmento fast fashion com entregas ultrarrápidas via armazéns próprios no Brasil.

Para o Mercado Livre, a mensagem é clara: crescer rápido ou ser diluído. Investir agora em escala, logística e ecossistema é mais barato que perder participação de mercado para concorrentes que não param de investir.

Os números por trás da estratégia

A estratégia do Mercado Livre pode parecer arriscada, mas os números mostram um crescimento consistente em todas as métricas relevantes:

  • Faturamento no Brasil: R$ 45 bilhões em 2025, crescimento de 28% sobre 2024
  • Usuários ativos mensais na América Latina: 148 milhões, sendo 52 milhões no Brasil
  • Vendedores ativos no Brasil: 3,2 milhões — aumento de 40% em dois anos
  • Itens vendidos por segundo no Brasil: média de 340 itens por segundo em horários de pico
  • Transações do Mercado Pago no Brasil: R$ 320 bilhões processados em 2026
  • Volume de crédito do Mercado Crédito: crescimento de 85% em relação a 2024
  • Entregas em até 48 horas: 65% dos produtos vendidos no Brasil
  • Investimento em infraestrutura logística (2024-2026): US$ 4 bilhões na América Latina

A única métrica que caiu é a margem EBITDA — de 12% em 2024 para 6% em 2026. Mas para uma empresa que está construindo infraestrutura de décadas, essa queda é aceitável — e esperada.

Desafios pela frente: regulação, sustentabilidade e concorrência

O caminho do Mercado Livre não está livre de obstáculos. Três desafios principais se destacam em 2026.

O primeiro é regulatório. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu investigação em 2025 sobre práticas do Mercado Livre que poderiam configurar abuso de posição dominante. Entre as práticas investigadas: priorização de produtos do Mercado Livre em rankings de busca (frente a vendedores independentes), exigência de uso do Mercado Envios como condição para participar de promoções e acesso a dados de vendedores para desenvolver produtos concorrentes. A empresa nega irregularidades, mas o processo pode resultar em multas ou mudanças de práticas.

O segundo é sustentabilidade. A expansão logística — mais caminhões, mais centros de distribuição, mais embalagens — aumenta a pegada de carbono do Mercado Livre. A empresa anunciou em 2025 metas de neutralidade de carbono para 2030, incluindo frota de caminhões elétricos e embalagens biodegradáveis. Mas ambientalistas criticam a falta de transparência nos dados e a velocidade de implementação.

O terceiro é a concorrência de preço. Com AliExpress e Shopee oferecendo produtos a preços significativamente menores, o Mercado Livre enfrenta pressão constante para manter competitividade. A resposta da empresa tem sido desenvolver "oficial stores" — lojas oficiais de marcas que oferecem produtos com garantia, nota fiscal e entrega rápida, diferenciando-se do marketplace genérico.

O que os investidores estão dizendo

A reação do mercado de capitais à estratégia do Mercado Livre é dividida. Investidores de crescimento — fundos de venture capital e gestoras focadas em tecnologia — aplaudem a estratégia. "O Mercado Livre está fazendo exatamente o que a Amazon fez entre 2010 e 2015. Quem investiu na Amazon naquela época viu o valor multiplicar por 10", argumentou um gestor da Tiger Global em relatório de abril de 2026.

Investidores de valor — mais conservadores e focados em dividendos — são céticos. "Margens de 6% são baixas demais para uma empresa de tecnologia madura. Se a competição aumentar e os investimentos não gerarem retorno, o modelo pode quebrar", advertiu um analista do Goldman Sachs.

O preço das ações do Mercado Livre (MELI) reflete essa divisão. Em 2026, as ações oscilaram entre US$ 1.800 e US$ 2.400, com volatilidade 40% maior que a média do setor de tecnologia. O valor de mercado da empresa chegou a US$ 95 bilhões — tornando-a a empresa de tecnologia mais valiosa da América Latina, superando até Nubank.

Conclusão: a aposta de longo prazo que pode redefinir o comércio latino-americano

O Mercado Livre de 2026 é um estudo de caso sobre visão estratégica e paciência capital. Uma empresa que poderia estar distribuindo lucros recordes está, em vez disso, reinvestindo cada centavo em infraestrutura, tecnologia e escala — apostando que o prêmio de ser líder absoluto do comércio digital na América Latina compensará os sacrifícios de curto prazo.

A estratégia não é isenta de riscos. A competição é feroz, a regulação é incerta e os investimentos são massivos. Mas se há uma lição que a história do e-commerce ensina — da Amazon à Alibaba, do Mercado Livre à Sea — é que em mercados de rede, quem chega primeiro e cresce mais rápido tende a dominar.

Para o consumidor brasileiro, o impacto é tangível: entregas mais rápidas, mais opções de pagamento, acesso a crédito e uma variedade de produtos que desafia qualquer loja física. Para o vendedor brasileiro, é uma plataforma que oferece alcance nacional — mas cobra alto por isso. Para o investidor, é uma aposta em que o longo prazo pode compensar o curto prazo.

O Mercado Livre abriu mão de rentabilidade. Mas pode estar comprando o futuro do comércio latino-americano.

Reportagem produzida com base em dados públicos do Mercado Livre, Fenabrave, EBANX, BTG Pactual e McKinsey. O Negócio Play não mantém relação comercial com nenhuma das empresas citadas. Dados financeiros referem-se a maio de 2026.

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Cris Aragoni

Sobre a autora

Cris Aragoni

Editora-chefe — O Negócio Play

Jornalista e empreendedora, Cris Aragoni é fundadora e editora-chefe do O Negócio Play. Especialista em varejo, fintechs e tendências de negócios no Brasil e na América Latina.

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