O mercado que não para de surpreender
O primeiro trimestre de 2026 entrou para a história do setor automotivo brasileiro. Com 1.254.696 unidades emplacadas, o período de janeiro a março registrou o terceiro melhor resultado da série histórica da Fenabrave — superado apenas pelos anos de 2011 e 2012, quando o mercado vivia um ciclo de expansão impulsionado por desonerações fiscais e crédito farto.
Desta vez, o cenário é diferente: o crescimento de 16,09% sobre o mesmo período de 2025 é sustentado por uma combinação de fatores estruturais — diversificação de marcas, eletrificação acelerada, crédito acessível e uma demanda reprimida que ainda não se esgotou. O mercado não está em bolha. Está em transformação.
Março: o mês que puxou o trimestre
O mês de março foi o grande responsável pelo resultado histórico. Com 257.801 unidades emplacadas — alta de 46,1% sobre fevereiro e de 37,9% sobre março de 2025 —, o mês confirmou que o apetite do consumidor brasileiro por veículos novos segue robusto.
A produção nacional acompanhou o ritmo: a Anfavea registrou 601.300 unidades produzidas no trimestre, crescimento de 7,39% sobre 2025. O crédito também fez sua parte — 1,89 milhão de contratos de financiamento foram firmados no período, alta de 12,8%, sinalizando que o brasileiro está disposto a parcelar o sonho do carro novo mesmo com juros ainda elevados.
O ranking das montadoras: Fiat segura o topo, BYD faz história
A Fiat manteve a liderança com folga: 126.605 unidades no trimestre, consolidando a marca italiana como a mais vendida do Brasil pelo décimo ano consecutivo. A Volkswagen ficou em segundo com 97.036 unidades, seguida pela Chevrolet com 61.171.
Mas o dado que mais chamou atenção do setor foi a entrada da BYD no top 5. Com 37.637 emplacamentos e crescimento de 73,6% sobre o primeiro trimestre de 2025, a montadora chinesa ultrapassou a Toyota (36.042 unidades) e se firmou como a quinta maior vendedora do país. A fábrica de Camaçari (BA), inaugurada em outubro de 2025 e já operando em dois turnos desde março, é o motor desse avanço.
Eletrificados: 89% de crescimento e 16% do mercado
Os veículos eletrificados — elétricos puros (BEV), híbridos plug-in (PHEV) e híbridos convencionais (HEV) — registraram crescimento de 89,23% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. O segmento já representa 16% do mercado total de zero quilômetros no Brasil.
Em março, foram 39.621 unidades eletrificadas emplacadas. Os elétricos puros (BEV) lideraram o crescimento com alta de 146%, totalizando 13.991 unidades. Os híbridos somaram 25.630 unidades. Na primeira quinzena de abril, os BEVs chegaram a representar 40% do mix de vendas dentro da categoria — um dado que seria impensável há dois anos.
O Brasil atingiu ainda dois marcos históricos: 200 mil veículos 100% elétricos em circulação e 630 mil eletrificados na frota total.
O fenômeno Dolphin Mini e o ranking dos elétricos
O BYD Dolphin Mini é o carro do momento. O compacto elétrico chegou à 9ª posição no ranking geral de automóveis em março — uma façanha inédita para um veículo 100% elétrico no Brasil. Com mais de 62 mil unidades vendidas desde o lançamento, o modelo acumula 7.053 emplacamentos só em março e responde por cerca de metade das vendas de elétricos puros no país.
No ranking dos elétricos puros, o pódio de março foi: BYD Dolphin Mini (1º), BYD Dolphin (2º) e Geely EX2 (3º). Entre os híbridos, BYD Song Pro e GWM Haval H6 disputaram palmo a palmo o topo, com 3.064 e 3.055 unidades respectivamente.
A BYD detém 70,38% de participação no mercado de BEVs no Brasil — uma dominância que lembra o que a Tesla fez nos EUA, mas com uma estratégia de preço muito mais agressiva e voltada para o consumidor de massa.
SUVs: a migração estrutural do consumidor
O Toyota Yaris Cross teve seu primeiro mês completo de vendas em março e já entrou no radar com 3.864 emplacamentos, superando modelos consolidados como o WR-V e o Corolla Cross. O Omoda 5, da Chery, acumulou 3.825 unidades no trimestre, superando o Renault Kardian e o VW Taos — sinalizando que as marcas chinesas não estão apenas no segmento elétrico, mas também conquistando espaço nos SUVs a combustão.
O Corolla Cross, por outro lado, registrou queda de 32,2% no trimestre (8.822 unidades), impactado por problemas de produção decorrentes de desastres climáticos na fábrica de motores no final de 2025. Um lembrete de que a cadeia global de suprimentos ainda é vulnerável.
O que esperar das próximas semanas
Com abril ainda em curso, o mercado deve fechar o mês entre 200 e 215 mil emplacamentos — um resultado sólido, mas abaixo de março por conta do menor número de dias úteis e do impacto da Semana Santa. O dado mais relevante a acompanhar não será o volume total, mas a participação dos eletrificados: se a tendência da primeira quinzena se mantiver, abril pode registrar a maior fatia mensal de elétricos e híbridos da história do mercado brasileiro.
O E-MOB 2026, previsto para novembro no São Paulo Expo, deve ser o próximo grande catalisador de anúncios e lançamentos no segmento de eletromobilidade. Até lá, o mercado segue aquecido — e cada vez mais eletrificado.
O dado mais revelador desta semana não é o volume de emplacamentos — é a velocidade com que o consumidor brasileiro está migrando para eletrificados. Em 18 meses, o segmento saiu de curiosidade de nicho para 16% do mercado. A entrada da BYD no top 5 das montadoras, com fábrica própria no Brasil, muda o jogo competitivo de forma permanente. As montadoras tradicionais que não acelerarem seus planos de eletrificação para o mercado local vão perder espaço de forma irreversível nos próximos 24 meses.
