O mercado brasileiro de veículos usados e seminovos encerrou o primeiro trimestre de 2026 com um recorde histórico: 15 milhões de unidades negociadas, crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados divulgados pela Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).
O desempenho surpreende até os analistas mais otimistas do setor e consolida o mercado de seminovos como um dos segmentos mais dinâmicos da economia brasileira, gerando mais de R$ 180 bilhões em movimentação financeira no trimestre.
O que está puxando o crescimento
Três fatores combinados explicam o boom dos seminovos em 2026. O primeiro é a alta persistente dos preços dos veículos zero-quilômetro, que subiram em média 18% nos últimos 12 meses devido à pressão cambial e ao aumento dos custos de matéria-prima, especialmente baterias para elétricos e semicondutores.
"O consumidor que antes comprava um zero-quilômetro agora encontra muito mais valor num seminovo com dois ou três anos de uso", explica Carlos Mendonça, presidente da Fenauto. "A relação custo-benefício ficou tão evidente que virou a escolha racional do mercado."
O segundo fator é a digitalização acelerada das plataformas de compra e venda. Apps como iCarros, Webmotors e OLX registraram juntos mais de 40 milhões de anúncios ativos no trimestre — crescimento de 35% em relação a 2024. A facilidade de pesquisa, comparação e até financiamento online transformou a jornada do comprador.
O terceiro fator é o crescimento das certificadoras independentes, que inspecionam e garantem a procedência dos veículos, reduzindo a desconfiança histórica do consumidor com o mercado de usados.
Modelos mais negociados
O ranking dos seminovos mais negociados no trimestre revela tendências interessantes do mercado:
- 1º lugar: Toyota Corolla Cross (2022-2024) — demanda 67% acima da oferta
- 2º lugar: Jeep Compass (2021-2024)
- 3º lugar: Hyundai HB20 (2020-2023)
- 4º lugar: Volkswagen T-Cross (2021-2024)
- 5º lugar: Chevrolet Onix (2019-2023)
A presença de SUVs nas primeiras posições confirma a mudança de preferência do consumidor brasileiro, que migrou definitivamente para carrocerias mais altas mesmo no mercado de usados.
O papel das concessionárias multimarca
As concessionárias multimarca foram as grandes beneficiadas do crescimento. Segundo a Fenauto, esse segmento registrou crescimento de 31% no faturamento, acima da média geral do mercado.
Grupos como Kavak, que opera no modelo digital com estoque centralizado, e redes regionais consolidadas, expandiram suas operações e abriram novos pontos em cidades médias, antes desassistidas por opções qualificadas de seminovos.
Perspectivas para 2026
A projeção da Fenauto para o ano completo é de 58 milhões de unidades negociadas, o que representaria novo recorde histórico e superaria em 19% o total de 2025. O cenário só seria prejudicado por uma queda brusca da renda ou um endurecimento do crédito — ambos considerados improváveis pelos economistas consultados.
"O brasileiro aprendeu que seminovo bem escolhido é melhor negócio que zero-quilômetro financiado. Essa mentalidade veio para ficar", conclui Mendonça.
